segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Silêncio

Gosto do silêncio, do escuro, da sensação de vazio que transmitem, da liberdade que a mente ganha para não existir, apenas para divagar entre pensamentos suaves, entre memórias, banhando-se numa nostalgia morna que me conforta. 
Apenas o som da respiração lenta, o bater do coração desacelerado, a leveza da mente que paira sobre uma paz esquecida. Momentos a que me agarro, como se fossem os últimos, como se fossem o eternizar de vida. Sempre vi no silêncio o outro lado de mim, o lado onde permanecia se assim me permitissem.
Por vezes, o silêncio, é mal interpretado por quem desconhece o conforto que ele é capaz de trazer, o poder que ele nos consegue dar a troco de nada. As palavras sao facilmente substiudas por momentos de silêncio se os soubermos perceber, sao mais poderosos que declarações de amor ou ódio, tao apaziguadores quanto um abraço. 
Hoje, irei respeitar os meus silêncios, dar asas a minha nostalgia, sentir o conforto dos meus pensamentos e deixar que me levem para longe, uma vez mais.

domingo, 4 de janeiro de 2026

Entre o limbo e o abismo

Entre o vazio e a ansiedade de querer, o limbo à beira do abismo, tão fácil largar e deixar ir, tão mais fácil largar e abrir mão do sonho que me prende e me sustém. 
 Dia após dia, luta após luta, a necessidade de correr atrás, de cerrar os dentes e vincar as unhas nos ténues fios em que os sonhos se guardam em suspenso na mente. A obrigação de cumprir o desejado, o medo de falhar que alimenta a alma tornando-o em força para não desmoronar. A constante ansiedade de ser amanhã, a urgência de querer o tempo na palma da mão, o desejo de controlar a areia que escapa por entre os dedos, a vontade de ter e prender num abraço o mundo que não me pertence.
 A dor no peito, que sufoca a cada suspiro, que adormece a alma e faz desvanecer os sonhos, lembra-me que é tão mais fácil abrandar, desistir, abrir mão... e então olho para o que me resta, o abismo vazio, o conforto de não ser, a ausência de culpa por não ter, a permissão de desistir sem qualquer ressentimento. Tão mais fácil.
A visão escurece, a dor no peito abranda, de olhos fechados imagino-me sem mundo, apenas o vazio, de vozes, de sons, de cheiros, de sentimentos... apenas o corpo imóvel, sem alma que o possa obrigar a lutar, apenas um equilíbrio entre o limbo e o abismo.

sábado, 3 de janeiro de 2026

Ausência de urgência

Vive-se em correria atrás de correria, atolados de urgências enfadonhas que delegam a importância de Ser para cubículos ondem não cabemos.
 Tempos de caminhadas rápidas sobre o asfalto quente, entorpece o corpo gasto de viajar para lado algum. Paisagens que os olhos jamais recordarão, por não terem tempo de as ver, por serem tudo aquilo que a alma não quis contemplar. 
Urgência atrás de urgência, um devorar de momentos que jamais iremos voltar a ter. A primeira vez que passsou sem que a seguinte seja opção de troca, sem lugar para permanecer, apenas a urgência de a  viver. 
Sons de várias cores, ruídos que nos levam para parte incerta, deixando uma neblina de emoções por sentir. Vazios de um eco que foi futuro passado, num mundo algures distante, ainda ontem. 
 A esperança de tudo isto fazer sentido, a certeza de ser apenas isto, um cubículo de vida onde não cabe o Ser de alguém. 
Perde-se o fio, ficamos sem pé, agarrados e suspensos a memórias que, de tão vagas, magoam pela ausência de sentir. Não deixamos a porta aberta para outros cubículos que não caibam em nós, em certezas de desconhecer o Ser que lhe possa habitar, mas a urgência de não abrandar, de não questionar para saber, segue-nos a urgência de viver. 
Não foi por ti que a paisagem não passou, não foi pela tua urgência que a vida não abrandou, apenas o teu Ser não acompanhou a leveza da vida.

domingo, 8 de setembro de 2024

7 Minutos

Conheço o controle de mim, os meus limites, sei que estou a ir bem, apenas um pouco de velocidade a mais, mas que mal faz? "8 ou 80", nunca gostei do meio termo, sempre vivi no limite, onde eu me sinto bem, a sentir a adrenalina do meu controle quando exposto no seu máximo.
Ao longe vejo luzes, brilhantes, se mantiver o olhar talvez fique encadeado e me faça perder a coragem, a bravura, tento não me concentrar nessas luzes, eu consigo controlar isto! Sinto o ar fresco que me bate no peito, que me percorre a alma, que me desperta os sentidos. Como uma melodia dentro de mim,faço da escuridão embalo, refugio, contorno de uma vida que não será a minha.
As luzes, aquelas luzes, cada vez mais próximas, ignoradas até ao mais ínfimo detalhe, apenas sei que existem, apenas sei que se aproximam, mas eu consigo controlar, eu consigo evitar!
O silêncio, apenas o silêncio do escuro. As luzes apagaram-se contra o meu peito, sinto como elas invadiram o meu controle, roubando-o de mim, destruindo a minha visão delas, perfurando-me ate deixar de sentir. 
Perdi a noção do tempo que fiquei inconsciente, perdi a realidade deste tempo que passou e em que não vivi. Dizem que a mente vive 7 minutos após o corpo partir e nesses 7 minutos revivemos o que de bom teve a nossa vida, recordamos amores, amizades, familiares, momentos. Talvez estes sejam os meus 7 minutos. Sinto uma paz ao lembrar-me de ti, do bem que me fizeste, da salvação que me deste, imagino o meu corpo a sorrir para ti, de como me sentia ao sorrir para ti. Não quero largar estes meus 7 minutos, não quero abrir mão do que me resta de ti, quero ficar aqui, sossegado, deitado eternamente a sentir o que resta de nós! 
Sinto a cabeça leve, a pairar sobre os meus pensamentos, a largar os meus sonhos, a abrir um espaço que desconheço, sem dor, sem magoa, sem amor, sem amizade, sem laços de nada ou ninguém, apenas o silêncio do escuro.  

domingo, 1 de setembro de 2024

Demônios

 Está escuro aqui, tento acompanhar os passos por entre a escuridão que me entorpece a alma, que se apodera do corpo. Está frio, sinto o ar gelado rasgar-me a pele expondo-me as entranhas, sinto o corpo negar-me a vida pela qual a alma batalha. Ao longe, os meus dóceis companheiros, domáveis seres que me acompanham, me perseguem, me acordam e me lembram que a realidade é feita por eles.
 Este vale que tantas vezes percorri, que percorro, sem nunca mudar para mim, sem nunca revelar o seu antro, reservando um pouco mais para mim, para que a cada visita consiga embrenhar-me um pouco mais em si. 
 Hoje revejo velhos companheiros que tanto anseiam por mim, que me chamam a cada dia como se necessitassem de mim para ver o mundo, para os revelar, para lhes dar forma e vida. Cedo as suas vontades, talvez um pouco de companhia me faça bem também, talvez a solidão tenha de ser partilhada com quem tão bem me conhece, para quem não tenho segredos, para quem tanto me deu sem nunca pedir nada. Vejo nas suas caras a felicidade de me ter, de serem parte de mim, de partilharem comigo este vale escuro onde habitam, de me fazerem sentir em casa. Mostram-me os sítios que tentei esquecer, emproam-se sempre que revejo onde dormi na minha última visita, relembram-me o chão que outrora era húmido, frio e encharcado, hoje apenas rochoso, morto de vida. 
 Aprecio a forma como eles gostam que os acaricie, o ronronar voraz que me fazem a cada toque, as suas vontades de devorar a alma deixando apenas o corpo rastejante sobre os rochedos desejando ser largado borda fora. São afáveis comigo, ao verem as feridas expostas pelo frio, com cuidado e dedicação, expõem as suas garras que lentamente me profuram a carne ensanguentada, minuciosamente, rasgam um pouco mais as chagas que o corpo esconde da alma, e com os seus sorrisos doces e meigos de devoradores, olham para mim enquanto me deixo sucumbir às suas vontades. Meus dóceis e domáveis companheiros de vida.
 Sinto o corpo arrastar-se pela escuridão, as pernas desgatas do tanto que o chão lhes faz, os músculos cansados de tentar manter o corpo funcional, as mãos ensanguentadas nas várias tentativas de me segurar, de tentar agarrar os rochedos por onde caminho. Prostrado sobre esta rigidez que me molda o corpo, fecho os olhos, tento descansar na esperança de recuperar o fôlego, de inventar sonhos. Ao meu lado, enroscando o meu corpo nos seus, estes dóceis seres aconchegam-me na esperança que seja deles o quanto antes, apenas deles.
O silencio do escuro, o vazio, a imensidão disto tudo que me preenche com restias de nada. Por hoje, apenas os meus dóceis e domáveis demônios.

quarta-feira, 2 de agosto de 2023

A menina do vestido vermelho

Esse tom moreno de pele queimada pelo
sol, o castanho do teu cabelo cacheado pelos ombros, o escuro dos teus óculos de sol pousados ao de leve na cara, e esse vermelho do teu vestido curto que mal te tapa os joelhos.
Não sei para onde ias, para quê essa pressa no teu caminhar. De movimentos ligeiros tropeçados entre a rapidez dos teus passos e a calma dos teus cabelos como se estivessem num trampolim de molas gastas tal era a suavidade com que subiam e pousavam nos teus ombros. Apenas te vi num relance fugaz, por entre os carros que passavam talvez sem destino, talvez sem vagar para te ver, sempre sem parar, não sabendo que ali passava a menina do vestido vermelho. É estranho pensar que esse teu vestido possa passar despercebido numa rua vazia de cor, onde o cinzento do chão se confunde com o branco das paredes, onde o verde das arvores se perde com os raios de sol que as atravessam.
Mas consegui ver-te, mesmo que por breves instantes, o vermelho do teu vestido encheu o horizonte onde o meu olhar se havia perdido na tentativa de desaparecer de qualquer cenário onde pessoas se atropelam. Talvez não fosse o teu vestido vermelho e continuaria a minha missão de me perder lá longe, mas mesmo distante, esse teu vestido, devolveu-me a realidade das cores que se vão apagando a cada verão da alma. Esse teu ar sisudo, de quem tem de de chegar sem percorrer, de quem tem informação privilegiada sobre a alma de quem se cruza contigo na rua, impiedoso a sorrisos e olhares.
Não consegui acompanhar o teu destino, perceber o teu motivo de ir, apenas fiquei ali, a ver o teu vestido vermelho, a sentir a realidade chegar a quem tem de escolher entre o mal e o bem.

terça-feira, 1 de agosto de 2023

As ilhas em mim

Como pedaços de terra por cultivar, vazios de tudo e repletos de nada, assim nascemos neste mundo que nos vai preenchendo aos poucos, que semeia em nós tudo que os outros vão deixando ao longo da vida, ate sermos pequenas ilhas de conhecimento, de sentimentos, de valores e tudo que alguém um dia quis que fossemos.
Nunca chegaremos a partir realmente para parte alguma, por mais superficiais que sejam as raízes, teremos sempre onde nos fixar, em lugares, momentos, ideias, em algum sentimento, mas nunca chegaremos a partir. Estes pequenos pedaços de terra que se encontram, que se confundem entre si, que se entrelaçam por entre sorrisos, olhares, sentimentos ligeiros ou profundos, nunca serão tão nossos, tão sós, como este chão que suporta a dor de viver nesta ilha a que chamo de alma. Nunca saberei o que é ter uma ilha só minha, viver do cultivo que eu próprio criei, do esforço e trabalho que nela dediquei, haverá sempre uma réstia de algo deixado por alguém que aqui passou, haverá sempre sementes deixadas cair dos bolsos rotos de um visitante que fez de um passagem, já era sempre uma arvore de fruto plantada outrora por alguém que quis fazer da minha ilha o seu porto de abrigo, haverá sempre algo de ti em mim para que me possa lembrar que não sobrevivo apenas do ar que respiro, para que me possa lembrar que esta ilha foi construída por mim e por todos aqueles que aqui passaram.
"Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós." Antoine de Saint-Exupéry

Silêncio

Gosto do silêncio, do escuro, da sensação de vazio que transmitem, da liberdade que a mente ganha para não existir, apenas para ...