domingo, 1 de setembro de 2024

Demônios

 Está escuro aqui, tento acompanhar os passos por entre a escuridão que me entorpece a alma, que se apodera do corpo. Está frio, sinto o ar gelado rasgar-me a pele expondo-me as entranhas, sinto o corpo negar-me a vida pela qual a alma batalha. Ao longe, os meus dóceis companheiros, domáveis seres que me acompanham, me perseguem, me acordam e me lembram que a realidade é feita por eles.
 Este vale que tantas vezes percorri, que percorro, sem nunca mudar para mim, sem nunca revelar o seu antro, reservando um pouco mais para mim, para que a cada visita consiga embrenhar-me um pouco mais em si. 
 Hoje revejo velhos companheiros que tanto anseiam por mim, que me chamam a cada dia como se necessitassem de mim para ver o mundo, para os revelar, para lhes dar forma e vida. Cedo as suas vontades, talvez um pouco de companhia me faça bem também, talvez a solidão tenha de ser partilhada com quem tão bem me conhece, para quem não tenho segredos, para quem tanto me deu sem nunca pedir nada. Vejo nas suas caras a felicidade de me ter, de serem parte de mim, de partilharem comigo este vale escuro onde habitam, de me fazerem sentir em casa. Mostram-me os sítios que tentei esquecer, emproam-se sempre que revejo onde dormi na minha última visita, relembram-me o chão que outrora era húmido, frio e encharcado, hoje apenas rochoso, morto de vida. 
 Aprecio a forma como eles gostam que os acaricie, o ronronar voraz que me fazem a cada toque, as suas vontades de devorar a alma deixando apenas o corpo rastejante sobre os rochedos desejando ser largado borda fora. São afáveis comigo, ao verem as feridas expostas pelo frio, com cuidado e dedicação, expõem as suas garras que lentamente me profuram a carne ensanguentada, minuciosamente, rasgam um pouco mais as chagas que o corpo esconde da alma, e com os seus sorrisos doces e meigos de devoradores, olham para mim enquanto me deixo sucumbir às suas vontades. Meus dóceis e domáveis companheiros de vida.
 Sinto o corpo arrastar-se pela escuridão, as pernas desgatas do tanto que o chão lhes faz, os músculos cansados de tentar manter o corpo funcional, as mãos ensanguentadas nas várias tentativas de me segurar, de tentar agarrar os rochedos por onde caminho. Prostrado sobre esta rigidez que me molda o corpo, fecho os olhos, tento descansar na esperança de recuperar o fôlego, de inventar sonhos. Ao meu lado, enroscando o meu corpo nos seus, estes dóceis seres aconchegam-me na esperança que seja deles o quanto antes, apenas deles.
O silencio do escuro, o vazio, a imensidão disto tudo que me preenche com restias de nada. Por hoje, apenas os meus dóceis e domáveis demônios.

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