Não sei para onde ias, para quê essa pressa no teu caminhar. De movimentos ligeiros tropeçados entre a rapidez dos teus passos e a calma dos teus cabelos como se estivessem num trampolim de molas gastas tal era a suavidade com que subiam e pousavam nos teus ombros. Apenas te vi num relance fugaz, por entre os carros que passavam talvez sem destino, talvez sem vagar para te ver, sempre sem parar, não sabendo que ali passava a menina do vestido vermelho. É estranho pensar que esse teu vestido possa passar despercebido numa rua vazia de cor, onde o cinzento do chão se confunde com o branco das paredes, onde o verde das arvores se perde com os raios de sol que as atravessam.
Mas consegui ver-te, mesmo que por breves instantes, o vermelho do teu vestido encheu o horizonte onde o meu olhar se havia perdido na tentativa de desaparecer de qualquer cenário onde pessoas se atropelam. Talvez não fosse o teu vestido vermelho e continuaria a minha missão de me perder lá longe, mas mesmo distante, esse teu vestido, devolveu-me a realidade das cores que se vão apagando a cada verão da alma. Esse teu ar sisudo, de quem tem de de chegar sem percorrer, de quem tem informação privilegiada sobre a alma de quem se cruza contigo na rua, impiedoso a sorrisos e olhares.
Não consegui acompanhar o teu destino, perceber o teu motivo de ir, apenas fiquei ali, a ver o teu vestido vermelho, a sentir a realidade chegar a quem tem de escolher entre o mal e o bem.